Quais são as principais barreiras para ascensão dos consumidores de cervejas comuns às especiais, e das especiais às artesanais? Como as cervejarias podem lidar com essas barreiras?
Talvez a principal delas seja a combinação de dois fatores: o costume de beber cervejas comuns e considerar que elas possuem um sabor peculiar e exclusivo - a pergunta sobre o motivo pelo qual o entrevistado não experimenta cervejas artesanais teve como principal resposta “estou acostumado com o sabor do que já bebo…”, com 31,6%; a segunda, que teve 21%, foi “acho (cerveja artesanal) muito amarga", empatando tecnicamente com a resposta dos que acham artesanais "muito caras”(20,8%). Essa pouca disposição para mudar se agrava com o fato de que a idade média dos respondentes, em sua maioria, supera os 40 anos, o que tende a levar a uma menor experimentação e consolidação de gostos e valores. Tanto que a principal resposta para a questão sobre critério de compra é “compro o que já conheço e gosto” em todas as faixas etárias, mas tende a crescer sensivelmente entre os mais velhos.
Esses fatores não sofrem alterações significativas dentro de diferentes faixas de renda da pesquisa. Talvez o primeiro reflexo seja produzir algo mais parecido com o que as pessoas estão acostumadas a beber, talvez com pequenas alterações, mas, além de sacrificar o propósito básico da cerveja artesanal, a criatividade, ainda levaria a dúvidas sobre a viabilidade financeira de brigar com as grandes com um produto que elas produzem com maior escala e investimento em divulgação. “Investir mais em comunicação” é a resposta mais fácil, mas provavelmente ela não tem rendido o resultado esperado. Seria necessário um investimento mais focado nessa faixa etária e em seu principal canal de consumo de cervejas, o que nos leva para a segunda barreira encontrada pela pesquisa.
Seguindo a tendência de anos anteriores, os mercados são o principal ponto de compra de cervejas apontado pelos respondentes, com 39,2%. Aqui está um problema, em que me baseio nas minhas observações de 20 anos do cenário cervejeiro para explicar: os supermercados já viveram sua “era de ouro” das cervejas artesanais, com pequenos produtores tendo abertura para expor seus produtos nas gôndolas a um número de pessoas consideravelmente maior do que o fariam em bares e restaurantes. Houve redes que fizeram festivais com esses produtores, e investiram em educação cervejeira, com material de apoio e especialistas nas lojas.
Esses tempos se foram, e hoje o que se vê nas gôndolas é um monopólio das grandes marcas, seja com cervejas mainstream ou com artesanais que fazem parte de seus grupos empresariais, e a presença reduzida de algumas importadoras de maior porte, além de raras artesanais de fato independentes de grandes corporações. Com isso, essa vitrine que é hoje o principal canal de compra de cervejas, segundo os participantes da pesquisa, ficou bastante limitada a alguns rótulos. Uma alternativa seria trabalhar com redes menores de mercados ou unidades autônomas, o que poderia permitir uma entrada mais igualitária, mas requereria mais esforços dos setores de vendas das cervejarias.
A pesquisa trouxe ainda uma outra barreira, que é a desconexão entre o perfil do produtor de cerveja/dono de cervejaria (homem branco, rico, jovem, fã de rock etc) e o público consumidor de cervejas ditas comuns que participou do levantamento e, dentro dessa categoria, forma o grupo hegemônico, como será visto abaixo. Ao menos nesse caso, de posse destes dados, os cervejeiros e players do mercado podem ajustar seus discursos e campanhas, ou, melhor ainda, contratar pessoas desses segmentos para ajudar no trabalho de divulgação das cervejas artesanais.
Qual(is) o(s) perfil(is) demográficos(s) desses consumidores que não aderiram à cerveja artesanal?
Considerando os grupos majoritários principais entre os respondentes da pesquisa que declararam consumir apenas cervejas comuns, seriam, por ordem: pessoas entre 45 e 54 anos (28,2%), moradoras do Estado de São Paulo (21,7%), do sexo feminino (64,1%), pretas ou pardas (58,1%), com emprego CLT (32,9%), renda até R$ 2.424 (31,2%), ensino médio (43,6%), que despende até R$ 100 mensais com cerveja (36,1%) ou entre R$ 101 e R$ 200 (25,8%) e até R$ 100 mensais com outras bebidas (79,2%), ou seja, extremamente focadas em cerveja. Elas consideram que bebem moderadamente (62,9%), embora digam contraditoriamente consumir mais de 12 doses por ocasião (36,1%), compram mais em mercados (37,1%) e optam por latas (38%) e decidem o que bebem pelo que já conhecem e gostam (48,6%) mais do que se pautam por preço (20,7%). Gostam de ouvir sertanejo (22,2%) e pagode (20,3%).
Não bebem artesanal por estarem acostumadas ao sabor das cervejas comuns (27,3%), por serem muito amargas (23,3%) e muito caras (19,2%). Ou seja, um grupo que é praticamente o oposto completo das pessoas que produzem cerveja artesanal e trabalham com sua venda e divulgação.
Quais as principais tendências positivas observadas, do ponto de vista de consumo de cerveja especial e artesanal?
Creio que a principal delas é a redução da tendência de consumo excessivo de cerveja por ocasião, registrada entre os participantes mais jovens da pesquisa. Dentre os respondentes de 18 a 24 anos que declaram consumir especiais e artesanais, 9,7% informaram beber de 9 a 12 doses por ocasião de consumo, e 15,2%, mais de 12 doses. Esses índices estão bem abaixo da média geral considerando todas as idades (16% e 22,4%, respectivamente).
Embora a redução de volume possa ser vista como um dado negativo pelas cervejarias, o ponto positivo é que isso pode, em tese, tornar a experiência de beber mais significativa e "com propósito” para esse segmento, situações em que a cerveja artesanal tem um discurso mais ajustado do que os produtos industriais feitos para serem consumidos em quantidade e sem grande concentração em seu conteúdo. Essa tendência também aparece entre os consumidores declarados de cervejas comuns.
Também chamou a atenção o potencial ainda não explorado de turismo cervejeiro, em particular o nacional, que tende a ser uma fonte direta de renda para os produtores. Além de mais de 40% dos respondentes que já participaram de algum tipo de atividade relacionada, há outros 50% interessados em se juntar a esse primeiro grupo. E, seja por questões de limitações financeiras ou escolhas pessoais, 38,7% gostariam de fazer esse turismo cervejeiro no Brasil.
Aqui, porém, fica claro que o turismo envolvendo cervejas não é apenas visita a fábricas e degustação direto do tanque, mas tem de envolver o conceito de experiência, seja aliada ao conhecimento da parte histórica da cidade ou região, ou com harmonizações. Esse turismo tem ainda de envolver estrutura profissional, como, por exemplo, opções de transporte para quem vai consumir álcool, e alternativas para quem não bebe.
Quais as principais tendências negativas observadas, do ponto de vista de consumo de cerveja especial e artesanal?
Uma delas, que não é inteiramente negativa, mas traz consequências para o bem e para o mal, é a polarização excessiva dos estilos mais consumidos entre IPA e “Pilsen"/American Lager (as aspas são devido ao fato de haver grandes chances de muitos dos que apontaram Pilsen estarem se referindo, de fato, a American Lagers e suas variantes). Embora as Weissbiers se coloquem entre essas duas categorias na questão sobre "qual o primeiro estilo artesanal provado", elas não conseguem permanecer nas preferências dos respondentes da enquete. Se por um lado ter uma distinção clara de poucos estilos pode facilitar a vida do produtor de cervejas, por outro torna o mercado muito monótono e limita movimentos de ampliação dos estilos produzidos de outras escolas (que, na visão do dono de fábrica, podem resultar em "prejuízo”por não girar tão rápido).
Esse fator também conduz o mercado a uma “ipificação” dos produtos, onde tudo ganha cargas extras de lúpulo para tentar se manter na tendência das cervejas amargas estadunidenses. Paradoxalmente, isso acaba dificultando a vida dos cervejeiros, pois passa a ser muito difícil se diferenciar da concorrência produzindo apenas um ou dois estilos dominantes, e fatores como hype (passageiro) e preço passam a desempenhar um papel maior, o que nem sempre é algo que estimula qualidade e criatividade.
Da mesma forma que na resposta da questão 2, nota-se também uma tendência de estagnação na curiosidade baseada em alguns marcadores. Na questão sobre critérios de decisão de compra, 18,8% afirmam que compram o que já conhecem e gostam. Mas outros 18,3% se pautam pelo estilo da cerveja - o que, combinado com a polarização entre IPA e Pilsen anteriormente citada, também sugere pouca variação - e 4,8% buscam marcas conhecidas.
Essa união dos três fatores chega a passar as alternativas relacionadas a valores (custo x benefício, com 18,4%, e preço, com 11,2%). Marcas desconhecidas e lançamentos mal chegam a passar 7% das opiniões. Essa tendência já havia sido indicada entre os consumidores comuns, questionados sobre as razões para rejeitarem cervejas artesanais: a resposta “estou acostumado com o que já bebo” foi a principal alternativa, e provavelmente está relacionada a outros itens, como "não sei escolher” e "não encontro facilmente".
Unidos, os três são sinais de que a comunicação cervejeira tem falhado em incutir dinamismo e euforia nos consumidores, bem como em educá-los sobre estilos, suas características e onde encontrar as artesanais.
Aí, contudo, entra outro problema apontado pela pesquisa: os consumidores de cerveja de 18 a 24 anos tiveram o segundo menor índice de consumo de conteúdo cervejeiro, atrás apenas dos participantes com 65 anos ou mais velhos. Apesar de 70,3% de consumidores ser um valor alto (média de 73,9% em todas as faixas etárias), ele pode sinalizar uma tendência futura de desinteresse por saber mais sobre cervejas (e sobre outras áreas em geral), o que afeta diretamente a cerveja artesanal, mais dependente de convencimento e conhecimento para ser vendida.
De que forma a entrada e o crescimento das cervejas sem álcool em diferentes ocasiões de consumo estão substituindo ou complementando o portfólio tradicional com álcool, e como as cervejarias deveriam ajustar mix de produtos, comunicação e educação do consumidor para capturar esse movimento?
Em primeiro lugar, cabe registrar que a pesquisa denota a existência de um “efeito Cereser” na categoria sem álcool - quando um produto pode se associar de tal forma ao conjunto do que ele representa - no caso, negativamente com as cidras -, que gera um impacto duradouro e resistência a produtos que levem a mesma nomenclatura. Notei que, na questão sobre barreira para consumo de cervejas sem álcool, a resposta "não gosto do sabor” se torna mais preponderante conforme aumenta a faixa etária dos respondentes. Isso pode estar associado a uma época em que havia muito poucas cervejas sem álcool no mercado (Kronenbier), com limitações de métodos de produção e desafios de estocagem e estabilidade do produto.
Outras duas variáveis indicam que a difusão de conhecimento sobre sem álcool e oferta mais regionalizada desempenham papel fundamental na percepção dos respondentes sobre o segmento (consumidores de comuns, especiais e artesanais têm uma visão mais positiva que negativa delas, com 35,7% contra 29,9%, enquanto para os bebedores de cervejas ditas comuns, a opinião negativa se sobrepõe por 46,9% contra 20,7%). Outra hipótese levantada pela análise dos números é a oferta de rótulos sem álcool em cada Estado. Em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, há mais oferta de rótulos artesanais sem álcool, pelo levantamento que mantenho do setor, e na pesquisa esses dois Estados têm avaliações positivas de rótulos do segmento em primeiro lugar.
Em Minas Gerais, onde há pouca oferta de sem álcool (Krug e Verace), a visão negativa é bem mais destacada. Então pode-se especular que haveria aqui outro dilema, este ao “estilo Tostines": há mais rejeição porque faltam opções locais ou vice-versa?
Em termos de oportunidades de mercado para as micros, os dados mostram que 6 rótulos sem álcool já provados pelos participantes da pesquisa concentram mais de 80% das respostas. Embora o dado reflita o poder de fogo das cervejarias de grande porte em impor suas marcas com propaganda e uma distribuição robusta nos pontos de venda, o que poderia gerar um certo desalento para o pequeno produtor, uma análise mais aprofundada e combinada das respostas gera uma esperança. As cervejas mais citadas são versões sem álcool de rótulos largamente conhecidos (Heineken, Bud, Brahma), todos na categoria das Lagers industriais de combate (tirando a honrosa exceção da Galicia Tostada Zero).
Aparentemente, o foco das grandes está em manter a aparência mais fiel possível de imiscuir as cervejas sem álcool com as alcoólicas chamando o mínimo possível de atenção, focando na questão do convívio social. \
Só que, pela pesquisa, na questão sobre o que levaria os participantes a consumirem mais cervejas sem álcool, quase dois terços dos respondentes citaram fatores que estão ligados a criatividade e inovação nas receitas, a saber: “Estilos e sabores diferentes” (36,6%); “Opções mais amargas”(18,5%) e “Adição de frutas” (6,4%). Embora a demanda por preços mais baixos surja em segundo lugar (24,5%), o coletivo das alternativas sugere que o consumidor quer inovação na cerveja sem álcool, a mesma criatividade pela qual as micros ficaram conhecidas, e que foi seu principal diferencial na disputa com as grandes por espaços.
Considerando esse cenário e as respostas, creio que a estratégia das cervejarias deveria se focar em três aspectos. O primeiro deles é uma comunicação que trate sem rodeios dos preconceitos relacionados com a cerveja sem álcool e a imagem negativa construída historicamente em torno dela. Pode ser na base do “incomodado com cerveja sem álcool ficava o seu avô".
Essa mesma comunicação deve enfatizar, ainda, o foco da cerveja artesanal em produzir rótulos sem álcool com muito sabor e personalidade, seja por frutas, lúpulo, acidez, maltes diferenciados etc. Por fim, é necessário articular soluções coletivas (via Abracerva ou entidades regionais) que facilitem a negociação de valores de insumos (a levedura sem álcool é um dos pontos de pressão do custo final do produto e não se recomenda sua reutilização), tentando, com isso, atender aos reclames dos participantes da pesquisa sobre valores.
Por fim, como sugestão para a próxima edição, seria bacana ter uma pergunta específica sobre valores das cervejas sem álcool, como "Quanto você acha que deveria pagar por uma cerveja sem álcool: mais, menos ou o mesmo valor que uma cerveja alcoólica?", para testar justamente a percepção de valor dos diferentes grupos nessa seara.
Quais outros atributos são relevantes para um consumidor de cervejas artesanais, para além do produto em si, e que podem ser explorados pelas cervejarias?
O principal deles é o preço. Isso fica marcado em dados mais diretos, como o orçamento mensal dos respondentes para comprar cerveja, em sua maioria nas faixas até R$ 200 (e, indiretamente, o de outras bebidas, na casa até R$ 100), ou nos motivos para rejeição das artesanais, onde a resposta ächo muito caras” aparece em segundo lugar, atrás apenas do costume de consumir cervejas comuns. Mas, se aprofundarmos essa linha de pensamento, podemos também entender que, apesar da restrição financeira, há, em segundo lugar das respostas na questão sobre critério de compra das cervejas, o "custo x benefício".
Trata-se de algo subjetivo, dependente de variantes como renda, orçamento mensal com cerveja e conhecimento sobre artesanais, mas que, em linhas gerais, sugere que o respondente pode até sair de sua toada de consumir majoritariamente o que lhe é conhecido, desde que veja vantagem nisso. A meu ver, essa vantagem pode ser, principalmente, um estilo familiar - critério que aparece na mesma questão com 14,4% das respostas. Essa familiaridade poderia ser, inclusive, uma forma de alavancar novas cervejarias "desconhecidas” e lançamentos de rótulos, que pontuaram baixo como definidores de compra na mesma pergunta.
Também conta pontos a embalagem da cerveja: a maioria dos consumidores de artesanais e especiais prefere a long neck, com latas na segunda posição. E, embora a busca na Internet e as recomendações de especialistas, somadas, não alcancem dois dígitos nos fatores de compra, estar no Instagram, a vitrine mais vista pelos apreciadores de artesanais, ou no Youtube, também conta.
Quais canais de venda ainda parecem ser subexplorados ou subocupados pelas cervejarias artesanais, e que poderiam contribuir para uma maior adesão de clientes?
Em que pesem fatores que se acentuaram nos últimos anos e levaram à redução do consumo de bebidas fora de casa (Lei seca, violência, pandemia, conveniência de ficar em casa etc), é notável o movimento de queda da presença de pessoas usando os bares como canal de compra conforme vão envelhecendo - há no geral um decréscimo de oito pontos porcentuais em relação à faixa de 18 a 24 anos (de 27% para 19% entre os mais velhos). Pode ser um movimento natural de acomodação do ser humano - são justamente os acima de 65 os maiores compradores de cerveja pelo canal de venda mercados -, mas também pode refletir um movimento de exclusão desse segmento no planejamento de bares mais focados em jovens, e isso passa por música, ambiente, cardápio e, também, por opções de bebidas. Essa tendência de menos bares e mais mercados de acordo com a idade é bastante acentuada no Sul do País, como em SC (3,3% x 66,7%), RS (9% x 77%) e PR (18% x 59%).
Parece-me um nicho mal explorado, com capacidade de fidelização maior do que entre as faixas mais jovens e com poder aquisitivo possivelmente mais elevado.
No outro extremo, causa espécie ainda o porcentual de respondentes de 18 a 24 anos que utilizam aplicativos de entrega - 10%, frente a 14% da faixa de 65 anos ou mais. Familiaridade com tecnologia, pouco tempo para compras presenciais e a própria comodidade são fatores que levariam a acreditar que os mais jovens estariam explorando esse canal bem mais, principalmente em conjunto com compras de outros itens de mercado ou refeições, por exemplo.
Em quais ocasiões de consumo a cerveja ainda tem pouca entrada, e que poderia ter uma penetração maior com ações de marketing, educação do consumidor e acesso a produtos diferenciados?
Em termos gerais do universo dos respondentes, a questão sobre ocasião de consumo mostra que a cerveja poderia melhorar seus indicadores contra outras bebidas no campo da intimidade do consumidor, a saber, nas situações de jantar em casa (3,57 no ranking, indicando tendência de empate entre cerveja e outras bebidas numa escala em que 1 são outras bebidas e 5 são cervejas); encontros (3,63) e sozinho em casa (3,83). É preciso fazer a ressalva que esta é uma pesquisa que, embora aberta a todos, tende a atrair majoritariamente pessoas cuja principal bebida alcoólica do dia a dia é a cerveja. Tanto que, em outra questão sobre consumo de outras bebidas, 12% informaram tomar apenas cerveja e o vinho, alternativa mais votada, não chegou a 25% das respostas.
Então é preciso ver essas situações em que o rating das respostas se aproxima do ponto de indefinição como situações em que, em amostras mais amplas, a cerveja pode estar em desvantagem considerável. Nessas três situações, a preferência por cerveja é maior nos estratos com menor renda familiar mensal (até R$ 3,6 mil). Em faixa etária, os mais jovens têm preferência consideravelmente menor por cerveja nas ocasiões descritas (3,3; 3,08 e 3,65, respectivamente).
Na divisão por gênero, há apenas alterações sensíveis. Mas, regionalmente, é uma tendência puxada por São Paulo e, em especial, por Minas Gerais, que estão em primeiro e terceiro lugares no total de votantes por Estado na enquete. Considerando as três situações e a questão sobre canal de venda que mostra preferência pelos supermercados, trata-se de um campo de batalha que não pode ser desprezado.
A cerveja precisa se desamarrar dos fardinhos plásticos e se aproximar da gôndola de vinhos e destilados para dividir essa “aura” de ocasiões especiais com eles.
Já entre os consumidores de cervejas especiais e artesanais, esse fenômeno nas esferas da intimidade mais ou menos se repete. Apenas nos jantares em casa a cerveja artesanal leva vantagem ligeiramente maior sobre as cervejas comuns do que as comuns sobre outras bebidas.
Há algumas ocasiões de consumo que mostram vantagem considerável da cerveja sobre outras bebidas no universo global de participantes, mas empate virtual entre comuns e artesanais nos consumidores dessas categorias. Duas delas são de acesso sem mediação para bebidas: churrasco e comemorações. Ou seja, em teoria, não há uma restrição ao que pode ser consumido nesses locais - cada um toma o que leva.
mas artesanais e comuns travam duelo acirrado no grupo mais fechado de consumidores (3,2). O mesmo ocorre em comemorações (4 e 3,55) . Em teoria, essas ocasiões poderiam ter um crescimento das artesanais sobre as comuns, condicionado a fatores como preço/promoções no canal de venda preferencial dos respondentes, o supermercado, por exemplo.
Já em baladas e bares/happy hours, o consumo é mediado, ou seja, há uma empresa com sua própria carta de bebidas e contratos com produtores que abastece os consumidores. Embora as artesanais levem mínima vantagem no bar/happy hour (3,35), há empate absoluto nas baladas (2,97). Nesses casos, o crescimento das artesanais é mais complexo e condicionado a acordos de venda, nem sempre fáceis de se obter diante dos termos de exclusividade fornecidos e cobrados por grandes empresas.
Por fim, há as categorias Carnaval/Festivais e Eventos Esportivos, em que o consumo é altamente limitado (e, em alguns Estados, vetado no caso dos eventos esportivos), em que as chances de acesso das artesanais são mínimas sobre as comuns de grandes empresas, devido a pesados contratos de exclusividade. Nesse caso, seria necessária a pesquisa de eventos culturais e esportivos de menor porte como alternativas: a Etapp, por exemplo, tem escolhido corridas de rua e competições locais/regionais de modalidades menos populares que o futebol para se apresentar ao consumidor.
Como sugestão de refinamento desta pergunta, seria bacana na próxima edição perguntar especificamente a que tipo de bebida o entrevistado associa preferencialmente a cada ocasião de consumo - quando não a cerveja -, tomando como base a lista já existente de alternativas contida na enquete.
Quais perfis de clientes tem potencial de conversão à cerveja especial ou artesanal e que poderiam estar mais no foco das ações das cervejarias?
Em teoria, podemos encarar que as frações de consumidores de cervejas comuns que responderam à pergunta sobre o porquê não consomem artesanais com as alternativas "não sei escolher” (10,9%) e “não encontro facilmente” (9%) seriam o que os estadunidenses chamam de “low hanging fruit” para essa conversão. Afinal, ambas as questões, que representam um quinto da suposta "rejeição” às artesanais na pesquisa, se resolvem com informação e educação cervejeira. Esses dois itens apresentam mínima variação entre gêneros, mas indicam que o desconhecimento é acima da média para jovens de 18 a 24 anos (chega a praticamente um terço da categoria) e, em menor escala, de 25 a 34 anos.
São públicos com mais acesso a redes sociais e, em teoria, mais sensíveis à comunicação digital. Em termos de renda, o índice de desconhecimento também sofre variações pequenas, exceto nas duas faixas de extrato bem mais elevado, indicando que o problema de acesso a informações cervejeiras é amplo.
Em um segundo grupo, há os que colocam preconceitos como justificativa: as artesanais seriam muito amargas/alcoólicas (há variedade suficiente para se encontrar rótulos com características diametralmente opostas em termos sensoriais), ou muito caras (há artesanais de maior porte brigando com as grandes em termos de valores nas gôndolas de supermercados, como Krug, Lohn etc), ou são os amigos que bebem cervejas comuns e podem reagir negativamente a alguém que leve artesanais aos encontros. Esses casos requerem esforço extra de comunicação além da educação cervejeira pura e simples, possivelmente com degustações em supermercados, bares etc.
O terceiro grupo é, infelizmente, o mais numeroso e também o menos provável de ser convertido. São as pessoas que alegam estar acostumadas com o sabor do que já bebem e não pretendem mudar (31% dos respondentes da pergunta). Seria o equivalente ao eleitor "hard user” de um político. Pode ser convencido de algo que fuja de sua própria visão pré-concebida? Até pode. Mas o custo é alto demais e a chance de sucesso, muito pequena.
Como tendências de moderação e saudabilidade influenciam o volume consumido e as características dos produtos escolhidos para consumir, e quão relevante é esse movimento para as cervejarias?
Tanto do ponto de vista de observação pessoal quanto pelos dados da pesquisa, a questão da saudabilidade (entendida aqui como a necessidade de a cerveja ter mais benefícios do que malefícios, ou seja, algum motivador saudável para seu consumo, como proteínas, vitaminas, melhoria de performance pós treino etc, contra itens como álcool/ressaca, desidratação etc) tem sim um impacto, mas que parece ser mais reduzido e midiático do que real. Há, sem dúvida, um grupo de consumidores que se preocupa cada vez mais em reduzir ou evitar o consumo de álcool com base em performance esportiva, mas ele é minoritário na população. É, claro, um retrato de momento, mas não parece factível que esse extrato de consumidores em potencial se torne dominante no médio a longo prazo.
Pela pesquisa, a maior parte dos entrevistados, ao ser questionado sobre medidas para redução do consumo de álcool, respondeu que reduz (ou reduziria) o consumo de cerveja regular/alcoólica. Há uma opção pela moderação sobre a saudabilidade, mas, mais do que isso, pela conveniência de não ter de mudar a cerveja com a qual já se está acostumado e, com isso, ter de gastar tempo e energia buscando outras. Em termos práticos, isso seria uma má notícia para as cervejarias, pois implica/implicaria redução de consumo e, por tabela, de vendas.
Mas, embora outras alternativas de redução de consumo fiquem, nesta mesma pergunta, atrás da hipótese "não tomar nenhuma medida", há uma sutileza por gênero que pode ser um caminho para produtores que desejem atingir esse nicho mais preocupado com a saudabilidade: o das cervejas de baixa caloria e low carb, também conhecidas como Ultra. As mulheres que participaram da pesquisa se mostraram mais sensíveis às alternativas que envolvem cervejas com baixa caloria, seja em combinação com as cervejas do dia a dia, seja junto com cervejas de baixo teor alcoólico. Mas, no geral, as alternativas de redução de consumo em que são citadas cervejas de baixa caloria (combinadas com as regulares ou de baixo teor alcoólico) se saíram melhor na preferência dos entrevistados do que as unicamente de baixo teor alcoólico ou zero álcool em todas as faixas etárias, e essa tendência se mantém, em linhas gerais, nos estratos diversos de renda familiar.
Ou seja, mais do que adicionar itens na cerveja, ou vender a bebida como tendo ingredientes e propriedades extras, parece surtir mais efeito nos entrevistados remover elementos da bebida, a saber, as calorias e o álcool. Se a tendência é de beber menos ou intercalar o consumo de bebidas alcoólicas com outras, os produtores precisam ter em seu rol de produtos versões Ultra, mais do que as sem álcool ou de teor reduzido.
"No news is good news". Zero notícia é uma boa notícia. Por incrível que pareça, se o setor da cerveja artesanal tivesse os mesmos problemas de antes da pandemia, esse cenário já poderia ser visto como algo positivo.
Infelizmente, a herança pós-Covid - dívidas e perda de visitantes -; solavancos econômicos ou mesmo a sensação baixa do consumidor de poder bancar o que comprava antes, a tal da affordability; o gasto em bets corroendo orçamentos familiares; pressão sobre o preço de combustíveis que encarece insumos; e o risco de tributações extras sobre a já pesada carga tributária da cerveja se somaram a um retrato desanimador. Ao considerar que "tudo está caro”- ou que seu poder de compra diminuiu, o consumidor muda hábitos, e isso afeta diretamente a cerveja artesanal, que passa a ser mais vista como algo caro. Por tabela, essa visão tende a reforçar o conservadorismo cervejeiro, ou o "beber apenas aquilo que já se conhece".
Que também pode ser entendido como minimização de riscos diante de marcas novas, estilos pouco usuais, e aposta no custo x benefício. De todos os problemas apontados pelos respondentes da pesquisa, talvez essa resistência a sair do que já se consome, aliada à sensação de que os supostos erros em escolhas cervejeiras custam mais caro do que antes, sejam um dos principais obstáculos ao crescimento do setor no momento. Ainda mais quando o consumidor alia essa sensação a preconceitos sobre a cerveja artesanal.
Felizmente - ou infelizmente, dada a demora no movimento -, os prováveis caminhos do setor cervejeiro para sair dessa situação já estão colocados há anos. O principal deles é ampliar a base de consumidores, e isso não quer dizer apenas procurar mais pessoas que se pareçam com o perfil típico do dono de cervejaria e que tenham gostos comuns. faz-se urgente olhar com respeito e detalhe para o público feminino, de outras raças e etnias, que goste de outros estilos musicais. Essa é uma tecla tão martelada nos nossos relatórios que começam a faltar maneiras diferentes de dizer a mesma coisa a quem nos lê.
Também é uma feliz notícia que a solução aparente de alguns dos problemas levantados pelos participantes da pesquisa falem a uma das principais características da cerveja artesanal, a criatividade. Seja para dar mais vida às cervejas sem álcool, para dar um brilho extra àquela visita maçante a uma cervejaria ou mesmo para dar um propósito ao ato de consumir álcool, com cervejas proteicas ou Ultra, o consumidor que mais do que água, malte, lúpulo e levedura. Ele almeja uma experiência diferente, que outras bebidas compostas estão tendo sucesso em lhe oferecer.
Como já dito antes, a célebre frase de Randy Mosher, que definiu a cerveja artesanal como aquela em que quem define a receita é o cervejeiro, e não o departamento de marketing, revelou com o tempo diferentes níveis de contradição e poréns. O cervejeiro não tem como saber dos gostos e aspirações de todos os seus consumidores, e muito menos dos consumidores em potencial. Ainda assim, o mercado está mudando, e é preciso observá-lo atentamente e se adaptar no que for possível.
Certa vez, perguntei a um dono de cervejaria por que ele não produzia uma receita sem álcool. "Porque eu só produzo o que eu gosto de beber", respondeu. Um ponto válido, mas que acaba excluindo uma camada do mercado que pode fazer falta ao fechar a conta no final do mês.
Outra pedra fundamental da cerveja artesanal pode ser uma alternativa para se chegar ao consumidor via supermercados e eventos. Se a maioria das grandes redes de varejo parecem ter se cansado da cerveja artesanal em quantidade e variedade - salvo honrosas exceções -, talvez o caminho seja buscar a vizinhança e os pequenos comércios locais. Se os grandes jogos de futebol e os festivais musicais estão dominados por contratos de exclusividade com grandes marcas, uma saída pode ser buscar os eventos esportivos - o circuito de corridas de rua é uma bola quicando - e culturais menores.
A capilaridade e o contato mais local são trunfos que não podem ser deixados de lado.
É possível se adaptar a novos públicos e tendências de mercado sem sacrificar princípios e valores da cerveja artesanal? Será que todos os princípios e valores do setor devem ser mantidos? Embora a combinação dos dois cenários pareça improvável, a troca de ideias e percepções entre produtores e consumidores pode fornecer uma bagagem rica para ambas as partes. É justamente o que tentamos intermediar com esta pesquisa. Saúde e boa leitura dos dados!